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Tarnation de Jonathan Caouette

Jonathan Caouette - Tarnation

Ontem minha namorada e eu fomos assistir à exibicão do filme Tarnation, do agora cineasta Jonathan Caouette, o qual estava presente na sessão e comentaria o filme após sua exibição.

O filme é um híbrido realidade-ficção (95/5) feito de reciclagem de documentações em diversas mídias captadas pelo próprio diretor no decorrer de 20 anos de sua vida.

Caouette conta a história da sua família disfuncional através de filmes super 8, VHS, betamax, fotos e mensagens de secretária eletrônica, tudo editado no iMovie, dentro de um iMac que ganhou da tia do seu namorado.

Não vou me estender muito na descrição, pois vocês podem encontrar informações sobre o filme na web. Mas apenas para situar, fiz um enxuto mindmap das principais relações da vida de Jonathan (lembre-se de ler o mapa em sentido horário começando as 12h).

Tarnation MindMap

Algumas considerações:

1. Algo que a maioria de nós jamais terá.

Jonathan tem algo que a maioria das pessoas jamais terá: a oportunidade de rever seu passado infinitas vezes numa tela de cinema ou TV.

A primeira coisa que me veio a mente foi pensar se esta superexposição ao filme do seu próprio passado não faz com que ele se desatache da sua vida, passando a enxergá-la como ficção, e assim ficando cego em relação a miséria da realidade. Quanto mais vê, menos enxerga. Normalizando a montanha russa de sentimentos.

O fato de alguém rever a sua história, diversas vezes, de uma forma editada e produzida pode mudar a sua percepção da realidade em relação aos fatos passados. Como uma metacriação da própria existência.

Quem sabe é o início de uma forma super alternativa de psico-terapia?

2. Consciência da própria obra.

Fiquei impressionado com o foco técnico em que Jonathan conduzia a discussão após o filme, como se ele não tivesse uma consciência maior do impacto da sua obra.

Revelou ao final do bate-papo que não tinha uma idéia sólida se haveria arrependimento no futuro de ter criado tal filme e ter se exposto de tal maneira.

Durante a exibição fiquei pairando sobre o que seria realidade e o que seria ficção, como numa grande indecisão entre tirar um ciso sem anestesia ou conviver com a dor de dente. Seja qual fosse o final, seria doloroso igual.
Há uma cena em que ele está ao telefone (foto) recebendo notícias sobre a overdose de lítio de sua mãe. Nem mesmo neste momento ele esquece sua relação com a câmera.
A tristeza da notícia já é dolorosa o suficiente, mas imaginar que nem mesmo neste momento ele perde a noção do seu “personagem” dentro do seu “possível” filme é algo realmente perturbador.

Tal momento fez conversarmos sobre o real papel que este intrumento teve em toda a vida de Jonathan.

3. O Papel da Câmera.

Quando Jonathan tinha 11 anos, ele se filmou em close num quarto escuro, travestido em drag, impersonando uma jovem americana sulista abusada pelo marido. A atuação é impressionante. Muito do conteúdo são idéias provenientes de programas de TV, mas boa parte da narrativa é construída por fragmentos de desabafos feitas por sua mãe Renee em momentos de delírio.

A câmera parece ter sido parte cúmplice, parte refúgio da dura realidade de Jonathan. É impressionante a sua obcessão pelo registro dos momentos da sua vida.

Em um momento da discussão pós-exibição, Jonathan deixa claro que “não é narcisista”. Declaração totalmente contestável após ver vários minutos de caras e bocas suas na tela, além de ele comunicar em seu discurso pré-exibição de que não se tratava de um documentário e sim de um filme experimental gay.

Me parece que assim sendo, a câmera escuta, conforta e o leva pra fora da sua realidade. Criando assim um recurso que o torna um personagem ficcional da própria vida.

Jonathan está em produção de 3 outros filmes. É possível que seu talento seja capaz de ultrapassar as expectativas do público construídas pela exposição do freak-show da sua família (comparada pelo próprio diretor às personagens de Pink Flamingos de John Waters).

Caso contrário pode ser bem duro ter que “sair do personagem”.

Upside Down ll!M

3 Responses to “Tarnation de Jonathan Caouette”

  1. Elisa Says:

    Eu tbem vi esse filme(jura?). Mas pelo que eu entendi que ele disse, essa cena do final é ficcional, e parecia mesmo. Mas enfim, eu queria ter filmado a minha vida, deve ser uma ótima terapia mesmo, pena que não ia fazer tanto sucesso quanto a dele.hehe

  2. Márcio Viana Says:

    Pô, Will! Vendo estes teus mindmaps, despertei a vontade de aprender mais sobre o assunto. Vou assistir uma palestra hoje sobre este assunto. Tô empolgado com a idéia. Abraço!

  3. xana Says:

    e uma merda

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